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segunda-feira, 4 de abril de 2011

“Aqui em portugal é assim”

Durante a campanha eleitoral de Barack Obama, a sua esposa, Michel Obama, foi chamada de racista. Porque ela disse, certa vez, que Barack, sendo negro, em fato de treino, e chapéu de basebol, tinha mais probabilidade em ser detido pela polícia, do que qualquer cidadão de raça branca. Esta prática policial, em que o principal factor de detenção, são as características físicas, ou a cor da pele, tem, nos EUA, o nome de “racial profiling”, é algo que qualquer negro espera que lhe aconteça pelo menos uma vez na vida. Tenho nos últimos anos vivido em Brooklyn, num bairro que não é dos melhores, onde pelas minhas “características físicas”, e forma de vestir não me distingo de muitos jovens com problemas com a polícia, mas foi em Lisboa, onde conheci a experiência do “racial profiling”.

Era sábado de manhã, 26 de Março, pelas onze da manhã, e saí de casa, com o meu irmão, Cláudio Tomás, para irmos ao supermercado. Eu ia vestido em fato de treino, a cabeça coberta pelo capuz do casaco, e óculos escuros. O meu irmão ia vestido mais formal. A duas ruas da casa onde vive o meu irmão, na Lapa, somos abordados por dois agentes da PSP (Polícia de Segurança Pública), da trigésima esquadra, Luís Marujo (153243), e Marco Valente (153672), numa viatura da corporação, de matricula 22-GX-00. Ordenamnos que coloquemos as mãos contra a parede, pernas afastadas, e que puséssemos todos os nossos pertences no chão. Tínhamos apenas carteiras, chave de casa, e, no meu caso, a caixa que continha os meus óculos graduados. Tentamos identificarmo-nos, dizer quem éramos e o que fazíamos, mas os agentes a princípio não estavam muito interessados em saber esta informação. Só passados uns 10 minutos, é que ficamos a saber a causa da detenção: um homem de certa idade, de raça branca, tinha sido assaltado não muito longe da Infante Santo, por pessoas cujas “características físicas” eram alegadamente muito parecida às nossas.

Passados uns 20 minutos, chegaram mais agentes da policia, uns cinco, dos quais três estavam fardados, e dois à paisana, em dois carros, um dos quais trazia o velho que tinha sido assaltado. O homem não precisou sair do carro para descobrir que nunca nos tinha visto na vida. Eu já tinha perguntado aos agentes, o que acontecia se ficasse provado que não tínhamos sido nós. Um dos agentes, dos que tinha acabado de chegar (que não consegui identificar mas que tinha o apelido de Tinoco), que lhes bastaria fazer um pedido de desculpas e que poderíamos continuar o nosso caminho. O meu irmão disse que aquilo tinha de ter consequências. Os agentes então concederam que nós podíamos apresentar queixa. Eu disse que não apresentava queixa, mas que eles iam ter notícias nossas. No meio desta discussão, desabafei que só em Portugal aquilo podia acontecer. Ao que um dos agentes a paisana, perguntou, porque eu vinha a Portugal, se não gostava do país, acrescentando – quando eu pus em causa a técnica policial de detenção arbitrária de pessoas de cor negra – que, em relação à forma como nos tinham abordado, “aqui em Portugal é assim”.

Já no final da troca acalorada com os agentes, um dos mesmo acrescentou: “o vosso único problema é estar no sítio errado, na hora errada”. Como “sítio errado”, se o meu irmão mora na Lapa? Mas nós somos conscientes que este era exactamente o problema da polícia. O meu irmão e esposa estão habituados aos taxistas que perguntam duas vezes quando lhes ouvem dizer a morada. E foi o mesmo que os agentes da polícia fizeram, quando nos levaram à casa para nos identificarem. Primeiro fingiram que não tinham percebido a morada, e andaram pelo bairro à procura da rua. E depois quando chegaram à rua, insistiram que o meu irmão provasse que morava de facto naquele prédio. Ao que o meu irmão fê-lo pela correspondência que estava na sua caixa de correio.

Grande lição de vida para mim, que não importa o que faças em Portugal, um polícia te vai sempre tratar como um preto. E que pode interromper a tua rotina, e humilhar-te, colocando-te contra a parede, enquanto esperas que o senhor branco (qual um senhor de escravos), venha identificar-te. E que feita vistoria, provada tua inocência, podes então seguir o teu caminho. O meu problema não são os agentes Marujo e Valente, que foram no geral correctos connosco – que já não posso dizer dos agentes que chegaram depois. O meu problema são com as técnicas de investigação policial, a técnica da “batida”, que reduz a polícia em bando armado. E também, com o facto de os agentes da polícia, na discussão que tivemos durante a detenção, usarem uma linguagem que não esperava em membros da corporação policial. “Se você não gosta de Portugal porque está aqui”, não é muito diferente do “preto vai para a sua terra”. Ou seja, que ao reflectirem nos seus gestos e palavras os sentimentos raciais do português médio, aqueles agentes da polícia, ou eram estúpidos, ou nunca tinham sido expostos em toda a vida a uma discussão sobre preconceito.


Jornalista Antonio Tomás in Novo Jornal.

quarta-feira, 9 de março de 2011

O Fo....! por Millôr Fernandes



O nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional à quantidade de "foda-se!" que ela diz. Existe algo mais libertário do que o conceito do "foda-se!"?

O "foda-se!" aumenta a minha auto-estima, torna-me uma pessoa melhor. Reorganiza as coisas.
Liberta-me.
"Não quer sair comigo?! - então, foda-se!"
"Vai querer mesmo decidir essa merda sozinho(a)?! - então, foda-se!"

O direito ao "foda-se!" deveria estar assegurado na Constituição. Os palavrões não nasceram por acaso. São recursos extremamente válidos e criativos para dotar o nosso vocabulário de expressões que traduzem com a maior fidelidade os nossos mais fortes e genuínos sentimentos. É o povo a fazer a sua língua. Como o Latim Vulgar, será esse Português Vulgar que vingará plenamente um dia. "Comó caralho", por exemplo. Que expressão traduz melhor a ideia de muita quantidade que "comó caralho"? "Comó caralho" tende para o infinito, é quase uma expressão matemática.


A Via Láctea tem estrelas comó caralho!
O Sol está quente comó caralho!
O universo é antigo comó caralho!
Eu gosto do meu clube comó caralho!
O gajo é parvo comó caralho!

Entendes?
No género do "comó caralho", mas, no caso, expressando a mais absoluta negação, está o famoso "nem que te fodas!". Nem o "Não, não e não!" e tão pouco o nada eficaz e já sem nenhuma credibilidade "Não, nem pensar!" o substituem. O "nem que te fodas!" é irretorquível e liquida o assunto. Liberta-te, com a consciência tranquila, para outras actividades de maior interesse na tua vida. Aquele filho pintelho de 17 anos atormenta-te pedindo o carro para ir surfar na praia? Não percas tempo nem paciência. Solta logo um definitivo:"Huguinho, presta atenção, filho querido, nem que te fodas!". O impertinente aprende logo a lição e vai para o Centro Comercial encontrar-se com os amigos, sem qualquer problema, e tu fechas os olhos e voltas a curtir o CD (...)

Há outros palavrões igualmente clássicos.Pense na sonoridade de um "Puta que pariu!", ou o seu correlativo "Pu-ta-que-o-pa-riu!", falado assim, cadenciadamente, sílaba por sílaba. Diante de uma notícia irritante, qualquer "puta-que-o-pariu!", dito assim, põe-te outra vez nos eixos. Os teus neurónios têm o devido tempo e clima para se reorganizarem e encontrarem a atitude que te permitirá dar um merecido troco ou livrares-te de maiores dores de cabeça.

E o que dizer do nosso famoso "vai levar no cu!"? E a sua maravilhosa e reforçadora derivação "vai levar no olho do cu!"? Já imaginaste o bem que alguém faz a si próprio e aos seus quando, passado o limite do suportável, se dirige ao canalha de seu interlocutor e solta:
"Chega! Vai levar no olho do cu!"?

Pronto, tu retomaste as rédeas da tua vida, a tua auto-estima. Desabotoas a camisa e sais à rua, vento batendo na face, olhar firme, cabeça erguida, um delicioso sorriso de vitória e renovado amor-íntimo nos lábios. E seria tremendamente injusto não registar aqui a expressão de maior poder de definição do Português Vulgar: "Fodeu-se!". E a sua derivação, mais avassaladora ainda: "Já se fodeu!". Conheces definição mais exacta, pungente e arrasadora para uma situação que atingiu o grau máximo imaginável de
ameaçadora complicação?

Expressão, inclusivé, que uma vez proferida insere o seu autor num providencial contexto interior de alerta e auto-defesa. Algo assim como quando estás a sem documentos do carro, sem carta de condução e ouves uma sirene de polícia atrás de ti a mandar-te parar. O que dizes? "Já me fodi!" Ou quando te apercebes que és de um país em que quase nada funciona, o desemprego não baixa, os impostos são altos, a saúde, a educação e … a justiça são de baixa qualidade, os empresários são de pouca qualidade e procuram o lucro fácil e em pouco tempo, as reformas têm que baixar, o tempo para a desejada reforma tem que aumentar … tu pensas “Já me fodi!”

Então:

Liberdade,

Igualdade,

Fraternidade

e

foda-se!!!

Mas não desespere:

Este país … ainda vai ser “um país do caralho!”

Atente no que lhe digo!